RESUMO DO CONTO: A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho Mário de Carvalho

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O grande Homero às vezes dormitava, garante Horácio. Outros poetas dão-se a uma sesta, de vez em quando, com prejuízo da toada e da eloquência do discurso. Mas, infelizmente, não são apenas os poetas que se deixam dormitar. Os deuses também. Assim aconteceu uma vez a Clio, musa da História que, enfadada da imensa tapeçaria milenária a seu cargo, repleta de cores cinzentas e coberta de desenhos redundantes e monótonos, deixou descair a cabeça loura e adormeceu por instantes, enquanto os dedos por inércia continuavam a trama. Logo se enlearam dois fios e no desenho se empolou um nó, destoante da lisura do tecido. Amalgamaram-se então as datas de 4 de Junho de 1148 e de 29 de Setembro de 1984. Os automobilistas que nessa manhã de Setembro entravam em Lisboa pela Avenida Gago Coutinho, direitos ao Areeiro, começaram por apanhar um grande susto, e, por instantes, foi, em toda aquela área, um estridente rumor de motores desmultiplicados, travões aplicados a fundo, e uma sarabanda de buzinas ensurdecedora. Tudo isto de mistura com retinir de metais, relinchos de cavalos e imprecações guturais em alta grita. É que, nessa ocasião mesma, a tropa do almóada Ibn-el-Muftar, composta de berberes, azenegues e árabes em número para cima de dez mil vinha sorrateira pelo valado, quase à beira do esteiro de rio que ali então desembocava, com o propósito de pôr cerco às muralhas de Lisboa. |
O AUTOR: MÁRIO CARVALHO

Licenciou-se em Direito pela Universidade de Lisboa em 1969. Desde jovem que se envolveu na luta antifascista, tendo estado preso ainda na década de 60 e durante o serviço militar. A sua luta política leva-o ao exílio, primeiro para a França, depois para a Suécia, em 1973. Após o 25 de Abril regressa a Portugal. A sua estreia literária dá-se em 1981, tendo desde aí publicado regularmente numa grande diversidade de géneros: romance, drama, contos, guiões.
A sua escrita é extremamente versátil e torna-se impossível incluí-lo numa escola literária. A crítica considera-o um dos mais importantes ficcionistas da actualidade e a sua obra encontra-se traduzida em vários países (Inglaterra, França, Grécia, Bulgária, Espanha, etc.).
Recebeu diversos prémios, podendo-se destacar, na sua bibliografia, o romance histórico "Um Deus passeando pela brisa da tarde", que constitui o seu melhor sucesso de vendas e que mereceu a aclamação da crítica, tendo sido distinguido com o Grande Prémio da APE (romance) 1995, o Prémio Fernando Namora 1996 e Prémio Pégaso de Literatura do mesmo ano.
Obras publicadas
- Contos da Sétima Esfera (Contos), 1981
- Casos do Beco das Sardinheiras (Contos), 1982
- O Livro Grande de Tebas, Navio e Mariana (Romance), 1982
- A inaudita guerra da Avenida Gago Coutinho (Contos), 1983
- Fabulário (Contos), 1984
- Contos Soltos (Contos), 1986
- A Paixão do Conde de Fróis (Romance), 1986
- E se Tivesse a Bondade de Me Dizer Porquê?(Folhetim), em colab. com Clara Pinto Correia, 1986
- Os Alferes (Contos), 1989
- Quatrocentos Mil Sestércios seguido de O Conde Jano (Novelas), 1991
- Água em pena de pato (Teatro), 1991
- Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde (Romance), 1994
- Era Bom que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto (Romance), 1995
- Apuros de um Pessimista em Fuga (Novela), 1999
- Se Perguntarem por Mim, Não Estou seguido de Haja Harmonia (Teatro), 1999
- Contos Vagabundos (Contos), 2000
- Fantasia para dois coronéis e uma piscina (Romance), 2003
- O Homem que Engoliu a Lua (Infanto-juvenil), 2003
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