| Caça ao tesouro |
| As Mulheres de Cesário | |
Introdução: A imagética feminina, na poesia de Cesário Verde, é diversificada e complexa. Ora frias como “milady”, ora frágeis e delicadas como a “Débil”, ora ainda vítimas da exploração social como a engomadeira e as varinas, as mulheres cesarianas dão conta não só duma época sócio-cultural finissecular, a do século XIX, como também do íntimo de um poeta que, por um lado, se solidariza com o feminino e, por outro, se deixa fascinar e humilhar pela indiferença do sexo oposto.
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Questões:
Leia atentamente os excertos dos poemas de Cesário Verde.
Contrariedades
Eu hoje estou cruel, frenético, exigente; Nem posso tolerar os livros mais bizarros. Incrível! Já fumei três maços de cigarros Consecutivamente.
Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos: Tanta depravação nos usos, nos costumes! Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes E os ângulos agudos.
Sentei-me à secretária. Ali defronte mora Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes; Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes E engoma para fora.
Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas! Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica. Lidando sempre! E deve conta à botica! Mal ganha para sopas...
[…]
E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso! Ignora que a asfixia a combustão das brasas, Não foge do estendal que lhe humedece as casas, E fina-se ao desprezo!
Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova. Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente, Oiço-a cantarolar uma canção plangente Duma opereta nova!
[…]
E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha? A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia? Vejo-lhe a luz no quarto. Inda trabalha. É feia... Que mundo! Coitadinha!
Deslumbramentos
Milady, é perigoso contemplá-la Quando passa aromática e normal, Com seu tipo tão nobre e tão de sala, Com seus gestos de neve e de metal.
Sem que nisso a desgoste ou desenfade, Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas, Eu vejo-a, com real solenidade, Ir impondo toilettes complicadas! …
Em si tudo me atrai como um tesoiro: O seu ar pensativo e senhoril, A sua voz que tem um timbre de oiro E o seu nevado e lúcido perfil!
Ah! Como me estonteia e me fascina… E é, na graça distinta do seu porte, Como a Moda supérflua e feminina, E tão alta e serena como a Morte! …
Eu ontem encontrei-a, quando vinha, Britânica, e fazendo-me assombrar; Grande dama fatal, sempre sozinha, E com firmeza e música no andar!
O seu olhar possui, num jogo ardente, Um arcanjo e um demónio a iluminá-lo; Como um florete, fere agudamente, E afaga como o pêlo dum regalo!
Pois bem. Conserve o gelo por esposo, E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos, O modo diplomático e orgulhoso Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.
E enfim prossiga altiva como a Fama, Sem sorrisos, dramática, cortante; Que eu procuro fundir na minha chama Seu ermo coração, como a um brilhante.
Mas cuidado, milady, não se afoite, Que hão-de acabar os bárbaros reais; E os povos humilhados, pela noite, Para a vingança aguçam os punhais.
E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas, Sob o cetim do Azul e as andorinhas, Eu hei-de ver errar, alucinadas, E arrastando farrapos - as rainhas!
Vaidosa
Dizem que tu és pura como um lírio E mais fria e insensível que o granito, E que eu que passo aí por favorito Vivo louco de dor e de martírio.
Contam que tens um modo altivo e sério, Que és muito desdenhosa e presumida, E que o maior prazer da tua vida, Seria acompanhar-me ao cemitério.
Chamam-te a bela imperatriz das fátuas, a déspota, a fatal, o figurino, E afirmam que és um molde alabastrino, E não tens coração como as estátuas.
E narram o cruel martirológio Dos que são teus, ó corpo sem defeito, E julgam que é monótono o teu peito Como o bater cadente dum relógio.
Porém eu sei que tu, que como um ópio Me matas, me desvairas e adormeces És tão loira e doirada como as messes E possuis muito amor... muito "amor próprio".
O Sentimento dum Ocidental
Avé-Maria
[…]
Vazam-se os arsenais e as oficinas; Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras; E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras, Correndo com firmeza, assomam as varinas.
Vêm sacudindo as ancas opulentas! Seus troncos varonis recordam-me pilastras; E algumas, à cabeça, embalam nas canastras Os filhos que depois naufragam nas tormentas.
Descalças! Nas descargas de carvão, Desde manhã à noite, a bordo das fragatas; E apinham-se num bairro aonde miam gatas, E o peixe podre gera os focos de infecção! […]
Lúbrica
Mandaste-me dizer, No teu bilhete ardente, Que hás-de por mim morrer, Morrer muito contente.
Lançaste no papel As mais lascivas frases; A carta era um painel De cenas de rapazes!
Ó cálida mulher, Teus dedos delicados Traçaram do prazer Os quadros depravados!
Contudo, um teu olhar É muito mais fogoso, Que a febre epistolar Do teu bilhete ansioso:
Do teu rostinho oval Os olhos tão nefandos Traduzem menos mal Os vícios execrandos.
Teus olhos sensuais Libidinosa Marta, Teus olhos dizem mais Que a tua própria carta.
As grandes comoções Tu, neles, sempre espelhas; São lúbricas paixões As vívidas centelhas...
Teus olhos imorais, Mulher, que me dissecas, Teus olhos dizem mais, Que muitas bibliotecas!
A Débil Eu que sou feio, sólido, leal, A ti, que és bela, frágil, assustada, Quero estimar-te, sempre, recatada Numa existência honesta, de cristal.
Sentado à mesa de um café devasso, Ao avistar-te, há pouco fraca e loura, Nesta babel tão velha e corruptora, Tive tenções de oferecer-te o braço.
E, quando socorrestes um miserável, Eu, que bebia cálices de absinto, Mandei ir a garrafa, porque sinto Que me tornas prestante, bom, sudável.
«Ela aí vem!» disse eu para os demais; E pus me a olhar, vexado e suspirando, O teu corpo que pulsa, alegre e brando, Na frescura dos linhos matinais.
Via-te pela porta envidraçada; E invejava, - talvez que não o suspeites! - Esse vestido simples, sem enfeites, Nessa cintura tenra, imaculada.
Soberbo dia! Impunha-me respeito A limpidez do teu semblante grego; E uma família, um ninho de sossego, Desejava beijar o teu peito.
Com elegância e sem ostentação, Atravessavas branca, esbelta e fina, Uma chusma de padres de batina, E de altos funcionários da nação.
«Mas se a atropela o povo turbulento! Se fosse, por acaso, ali pisada!» De repente, parastes embaraçada Ao pé de um numeroso ajuntamento,
E eu, que urdia estes frágeis esbocetos, Julguei ver, com a vista de poeta, Uma pombinha tímida e quieta Num bando ameaçador de corvos pretos.
E foi, então que eu, homem varonil, Quis dedicar-te a minha pobre vida, A ti, que és ténue, dócil, recolhida, Eu, que sou hábil, prático, viril.
1. Trace fundamentadamente os perfis das mulheres apresentados nos poemas. 1.1 Refira a visão do sujeito poético relativamente a cada uma dessas mulheres.
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Recursos:
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Questão principal: 1. As mulheres de Cesário continuam a ser as mulheres de hoje?
Num texto expositivo-argumentativo de 100 a 200 palavras, responda à pergunta, justificando, com pelo menos dois argumentos, a sua posição. |
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| Criado por Cristóvão Pereira e Eker Freitas: : accp1969@gmail.com e eksofr@gmail.com : : 07-03-2009 | |